Amigos da Alcateia

domingo, 29 de abril de 2012

Histórias da Jângal - O Aprendizado de Mowgli

...Mowgli, como Filhote de Homem que era, tinha de aprender muito - às vezes, Bagheera vinha de manso por entre os arbustos para ver como o seu favorito ia de lições, e ficava de cabeça recostada a um tronco ouvindo-o repeti-las. O menino da Jângal já subia em árvores tão bem como nadava nas lagoas, e nadava tão bem como corria pela floresta. Por isso estava Baloo a lhe ensinar a Lei das Águas e a Lei das Árvores - como, de cima dum galho vivo, adivinhar um galho morto adiante; como falar polidamente a uma colméia quinze metros acima do chão; o que dizer a Mang, o Morcego, ao ter de incomodá-lo em seu galho, em pleno esplendor do sol; como avisar as serpentes aquáticas quando se vai dar um mergulho na lagoa. Nenhuma das criaturas da Jângal gosta de ser perturbada, nem de ser forçada a fugir com o súbito aparecimento dum intruso. Por isso, também lhe foi ensinado o Grito do Caçador Intruso, o qual tem de ser repetido até que venha resposta, sempre que uma criatura quer caçar fora de sua zona. Esse grito é assim: "Licença para caçar aqui, que estou com fome". E a resposta: "Caça, mas só para matares a fome, não por prazer".
Estes exemplos mostram quanto Mowgli tinha de aprender de cor - coisas que o cansavam pelo grande número de vezes que havia de repeti-las.
- O tamanho dele acaso evita que seja morto? – justifica Baloo. - Certo que não. Por isso lhe ensino tanta coisa - defesas - e nele bato, sem o machucar, quando se mostra desatento no aprender.
- Mas cuidado em não ensiná-lo demais, matando-o. Quais são essas palavras que ensinaste ao nosso filho? Gostaria de conhecê-las.
- Chamarei Mowgli para que as diga... - se ele o quiser. Vem cá, Irmãozinho! - gritou o urso.
- Minha cabeça está azoando como árvore de abelhas - murmurou por cima dos dois animais a voz queixosa de Mowgli, que vinha escorregando duma árvore abaixo, colérico e indignado.
- Vamos, dize a Bagheera as Palavras Mestras da Jângal, que te venho ensinando estes dias.
- Palavras Mestras de que povo? - indagou Mowgli, deleitado de exibir seus conhecimentos. - A Jângal possui muitas linguagens, que conheço todas.
- Conheces um bocadinho, não todas. Vamos, dize as Palavras do Povo Caçador, ó grande aluno!
-Somos do mesmo sangue, vós e eu – disse Mowgli.
- Bem. Agora a Palavra das Aves.
Mowgli repetiu-a.
- Agora a palavra do Povo Serpentino - pediu Baghera.
A resposta foi um indescritível assobio ou silvo muito bem imitado.
- Aí está! Esses modos justificam os meus tapas, disse o urso com ternura. Um dia há de agradecer-mos. Não tem a temer ninguém - concluiu Baloo orgulhosamente.
- Exceto a tribo dos lobos - murmurou Bagheera a meia voz. Depois, alto, para Mowgli: - Tem dó das minhas costelas, Irmãozinho. Que dança é essa aí em cima?
Estava Mowgli a puxar o pêlo do pescoço da pantera e a esporeá-la para que desse atenção ao que ia dizer.                                                                                                                                                                                                                                                                           
- Penso que terei minha própria tribo, que guiarei o dia inteiro pelo Jângal.
- Que nova loucura é essa, sonhador de sonhos? - indagou Bagheera.
- Sim, e havemos, do alto das árvores, de jogar ramos e nozes sobre este urso velho - continuou Mowgli. - "Eles" prometeram-me isso.
- Mowgli - disse Baloo, - estiveste a conversar com os Bandar-log, o Povo Macaco?
O menino olhou para Bagheera para ver se também estava colérica. Os olhos que encontrou tinham a dureza do jade.
- Estiveste com os macacos? Com os macacos cinzentos, o povo sem lei, os comedores de tudo? Que vergonha!...
- Quando Baloo machucou minha cabeça - respondeu Mowgli ainda na mesma posição - saí pela Jângal, para muito longe. Os macacos cinzentos, em certo ponto, desceram das árvores, cheios de piedade por mim. Só eles tiveram dó de mim...
O dó do Povo Macaco! - exclamou Baloo com ironia. - Isso vale o mesmo que dizer o silêncio da cachoeira, a frescura do fogo... E depois, filhote de homem?
- Depois... depois me deram castanhas e mais coisas gostosas!... carregaram-me nos braços ao topo das árvores e afirmaram que eu seria o seu grande chefe.
- Os macacos não têm chefe - rosnou Bagheera. - Mentiram. Mentem sempre.
- Foram muito bondosos comigo - prosseguiu Mowgli, - chegando a pedir que voltasse de novo. Dizei-me: por que nunca me levastes para o meio desse povo? Eles sabem andar de pé, como eu. Não me maltratam. Brincam o dia todo. Larga-me, Baloo! Deixa-me ficar de pé, urso malvado! Quero e hei de visitar os macacos outra vez...
- Ouve, filhote de homem - urrou o urso com voz de trovão. - Ensinei-te a Lei do Jângal no que diz respeito a todos os animais, menos aos macacos que moram em árvores. Eles não têm lei. São proscritos. Vivem rindo de tudo, sem saber por quê. Nós no Jângal não temos nenhum entendimento com esse povo. Já viste a mim, por acaso, falar neles, algum dia?
- Nunca - respondeu Mowgli num murmúrio que soou nítido no silêncio em que o trovejar de Baloo deixara a Jângal.
- O Povo do Jângal os baniu da sua boca e do seu pensamento. Eles são numerosíssimos, maus, sujos, sem brio, animados do desejo único de serem vistos e admirados por nós.
Mal acabara Baloo de pronunciar estas palavras, uma chuva de nozes e galhos secos caiu sobre eles, vinda de cima das árvores próximas, acompanhada de um rumor muito conhecido de saltos, guinchos, uivos e tossidas.
- O Povo Macaco não existe para o Povo do Jângal. Lembra-te sempre, Mowgli.
- Não existe - confirmou Bagheera. - Mas julguei que Baloo já houvesse avisado Mowgli disso.
- Eu? Eu? Como poderia adivinhar que iria ele meter-se com a sujidade? Macacos! Ugh!...
A chuva de nozes e galhos continuou, fazendo que o urso e a pantera se fossem dali e levassem Mowgli consigo. O que Baloo dissera dos macacos correspondia à realidade.
Súbito, o menino acordou agarrado nos braços e pernas por pequenas munhecas ásperas, ao mesmo tempo em que sobre sua cabeça as ramagens eram sacudidas violentamente.
- Eles nos viram! - gritavam num delírio de contentamento. - Bagheera nos viu! Todo o Povo do Jângal nos admira pela nossa habilidade e engenho!
Depois principiaram a lutar entre si nos galhos, coisa que ninguém descreve.
Repugnado como se achava, nem por isso deixou Mowgli de gozar aquela selvagem corrida aos pulos.
A escolta que o conduzia era habilíssima em levá-lo ao mais alto das copas; nesses momentos, rápidos como o relâmpago, os macacos atiravam-se numa direção ou noutra, para se agarrarem aos galhos mais grossos das árvores próximas. Os raptores logo o puxavam e o remergulhavam no seio escuro das copas das árvores.
Que fazer? A primeira coisa a fazer seria comunicar-se com Baloo e Bagheera, porque, na velocidade com que os macacos o conduziam, aqueles amigos estavam se distanciando cada vez mais.
Olhar para baixo, inútil; só enxergava galhos e mais galhos. Olhar para cima, sim, talvez nisso estivesse a salvação. Acertou. Logo que ergueu os olhos para o Céu, viu, muito alto, um ponto que se movia no azul. Era Chil, o Abutre, que soltou um pio de surpresa quando percebeu Mowgli, num dos momentos em que era lançado duma árvore para outra, e lhe ouviu a Palavra dos Abutres gritada em tom agudo: "Somos do mesmo sangue, eu e tu!".
Mas a onda verde das copas rápida se fechou, tirando o menino das vistas de Chil, que, cheio de curiosidade, voou para uma árvore adiante, donde pudesse avistar Mowgli outra vez.
- Marca a direção que levo e avisa a Bagheera e Baloo - gritou o menino ao passar por aquela árvore.
- Em nome de quem? - indagou Chil, que só conhecia Mowgli de nome e feitos.
- Em nome de Mowgli, a Rã, ou do filhote de homem, como muitos me chamam. Marca a direção.
Chil, lá de cima, firmou o telescópio dos olhos sobre o mar de copas, a fim de bem observar, pelo movimento das folhas e galhos, a trilha que os macacos seguiam.
- Eles nunca se afastam para muito longe - murmurou consigo Chil. - Nunca fazem o que combinam ou pretendem fazer. Distraem-se pelo caminho. Se não me iludo, devem estar, neste momento, em disputa sobre qualquer coisa sem importância.
E Chil continuou de observação, flutuando, de pés encolhidos, librado a lentos impulsos de asas.
Longe dali, Baloo e Bagheera ardiam em cólera. A pantera trepara tão alto em uma árvore que perdera o equilíbrio e viera ao chão com as garras cheias de fragmentos de casca.
- Por que não ensinaste tudo, tudo, ao filhote de homem? - gritou ela furiosa para o pobre Baloo, que marchava no trote, com esperança de alcançar os raptores. - De que adiantou tanto tapa, se não lhe deste todas as lições necessárias?
- Depressa, mais depressa - respondeu Baloo ofegante. - Nós ainda poderemos alcançá-los.
- Neste andar? Neste andar não forçaríamos sequer uma vaca ferida. Mestre da Lei do Jângal, carrasco do filhote de homem, uma légua mais desse teu trote te deixará estrompado. Pára e medita. Eles são capazes de o largar do alto das árvores, se os seguirmos muito de perto.
- Arrula! Whoo! Talvez já o tenham feito, cansados de o conduzir.
Baloo castigava-se a taponas na cara e rolava no chão, uivando de dor.
- Baloo, que modos são esses? Mais respeito por ti próprio! Que pensaria a Jângal se eu, Bagheera, rolasse no chão como Ikki, o Porco-Espinho, e uivasse, como estás fazendo?
- Que me importa a mim o que a Jângal pensa? Mowgli, o meu Mowgli, pode estar morto a estas horas...
- A não ser que o derrubem do alto das árvores ou o matem por desfastio, nada receio pelo filhote de homem.
Bagheera pôs-se a lamber uma das patas, pensativamente.
- Louco que fui! - continuou Baloo, erguendo-se do chão. - Louco peludo! Louco dos loucos! É verdade que Hathi, o Elefante Selvagem, costuma dizer: "Cada qual tem o seu medo". Os Bandar-log têm medo de Kaa, a Serpente. Vamos em procura de Kaa.
- Que poderá ela fazer por nós? Não pertence à nossa raça, sem pés que é, e com aqueles olhos tão maus - sugeriu Bagheera.
- Kaa possui a habilidade e a experiência das criaturas muito velhas. Além disso, vive sempre com fome - disse Baloo animado de esperanças. - Prometer-lhe-emos cabritos, muitos cabritos.
- Kaa dorme por quatro semanas cada vez que se alimenta. Pode estar a dormir agora e, ainda que o não esteja, ela sabe caçar por si mesma quantos cabritos queira.
A pantera não conhecia muita coisa a respeito dos costumes de Kaa e, portanto, estava incrédula.
- Nesse caso, eu e tu, velhos caçadores que somos, forçá-la-emos a agir - aventurou Baloo, seguindo com a pantera em direção à moradia de Kaa, a Serpente da Rocha.
Encontraram-na estirada ao sol, admirando o seu vestuário novo, pois que vinha de terminar o retiro durante o qual muda de pele. Mostrava-se esplêndida de vigor.
- Nada comeu ainda - disse Baloo num suspiro de alívio. - Cuidado, Bagheera! Kaa fica um tanto cega sempre que muda de pele e compensa isso com a rapidez dos botes.
Não era Kaa uma serpente venenosa, chegando mesmo a desprezar, como covardes, as que o eram. Sua força residia nos músculos. Quando enleava alguma presa, tornava inútil qualquer resistência.
- Boas caçadas! - saudou Baloo, sentando-se defronte dela.
Como todas as cobras, Kaa era dura de ouvidos. Por isso, ao ouvir a saudação de Baloo, enleou-se para o bote de defesa, sinal de que não o ouvira claramente. Logo depois, compreendendo o que era, respondeu:
- Boa caçada para todos nós. Ó, Baloo, que novidade te traz aqui? Um de nós, pelo menos, está com fome. Sabeis d’alguma presa ao alcance?
- Estamos caçando - disse Baloo com voz amável e sem pressa, pois sabia que nada se deve precipitar com os animais grandes.
- Permiti-me que vá convosco - disse Kaa. – O desagradável é que os galhos não são hoje o que eram na minha mocidade. Secos e podres, todos eles...
- Talvez teu grande peso de agora explique essa diferença sugeriu Baloo.
- Estou dum belo comprimento, não há dúvida - disse Kaa com certo orgulho. - Mas a culpa é dos galhos de hoje em dia, muito fracos.
- Sem pés, minhoca amarela - murmurou Bagheera, que sabia quais os insultos com que os macacos insultam as cobras.
- Ssss! - chiou Kaa. - Disseram isso de mim?
- E coisas ainda piores disseram a quem os quisesse ouvir, na lua passada. Mas ninguém os aplaude. Eles não cessam de dizer coisas, e de ti chegaram a inventar que és uma serpente desdentada, incapaz de atacar presa maior do que um cabrito novo, e sabes por quê?
Uma serpente, sobretudo uma velha serpente da espécie de Kaa, raro se mostra colérica. Baloo e Bagheera, porém, puderam notar-lhe um movimento significativo dos músculos queixais.
Os Bandar-log mudaram-se para aqui perto - disse com disfarçada indiferença a cobra. - Quando vim hoje espichar-me ao sol, ouvi-os em gritaria nas árvores próximas.
- São... são esses os macacos que estamos seguindo - disse Baloo com repugnância.
Compreendendo isso, Kaa observou:
- Alguma fizeram para terem à cola dois caçadores deste porte, caçadores mestres! Andais, então, na pista deles, ó valentes caçadores?
- Nada sou - respondeu Baloo com modéstia - além dum velho e às vezes caduco professor da Lei do Jângal, e aqui a amiga Bagheera...
- Bagheera é Bagheera! - interveio a pantera batendo firme os dentes, já que não entendia de humildades. - O caso é este, Kaa, os comedores de nozes raptaram o nosso filhote de homem, que talvez conheças de fama.
- Ouvi de Ikki alguma coisa sobre um filhote de homem a criar-se em certo bando de lobos de Seeonee. Mas não acreditei. Ikki vive cheio de histórias mal ouvidas e pior contadas.
- Essa é verdadeira. Trata-se dum filhote de homem como jamais existiu igual - disse Baloo. - O mais vivo e intrépido de todos os filhotes de homem, meu discípulo, e discípulo que fará o nome do velho Baloo famoso em toda a Jângal. Além disso, eu... nós o adoramos, Kaa.
- Tss! - silvou a serpente, movendo a cabeça chata da esquerda para a direita. - Também sei quem o adora. Ouvi histórias que poderei repetir...
- Fiquem as histórias para uma noite de lua em que estivermos de papo cheio e com boa disposição - interrompeu Bagheera vivamente. - Nosso filhote está nas munhecas dos macacos, os quais, de todas as criaturas do Jângal , só temem a ti, Kaa.
- Temem a mim só - confirmou Kaa e com justo motivo. Barulhentos, doidos, mesquinhos! Mesquinhos, doidos e barulhentos: eis o que são os Bandar-log. Não considero invejável a sorte desse filhote de huinhos! Mesquinhos, doidos e barulhentos: eis o que são os Bandar-log. Não considero invejável a sorte desse filhote de homem. Insultaram-me de minhoca amarela, não é?
- Sim - minhoca amarela, além de coisas que não posso dizer, de vergonha.
- Precisamos ensiná-los a ter melhor língua. Aaa-sssh! Precisamos ajudá-los a se educarem. E para onde conduziram esse filhote?
- Só a Jângal o sabe. Para o poente, creio - informou Baloo. - Julgávamos que tu o soubesses, Kaa.
- Eu? Como? Eu os apanho quando os pilho em meu caminho, mas jamais os procuro.
- Up, Up! Up, Up! Illo! Illo! Illo! Levanta os olhos, ó Baloo da Alcatéia de Seeonee!
Baloo ergueu a cabeça e viu que Chil, o Abutre, descia do alto, com o sol a lhe brilhar nas asas.
- Que há? - indagou Baloo.
- Vi Mowgli entre os Bandar-log. Pediu-me que avisasse seus amigos. Os macacos o levaram para além do rio, para as Tocas Frias, na Cidade Perdida.

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